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Pesquisa mostra que quase 49% das dívidas dos brasileiros estão com atraso do pagamento acima de 3 meses

Foto do escritor: Adriana Leite
Adriana Leite
há 1 dia
5 min de leitura

O endividamento das famílias estabilizou nos últimos dois meses, mas os juros altos e a pressão inflacionária sobre a renda preocupam os consumidores



Pesquisa: 19% dos lares continuam com mais da metade da renda mensal comprometida de dívidas
Pesquisa: 19% dos lares continuam com mais da metade da renda mensal comprometida de dívidas

O combo juros altos, pressão inflacionária, descontrole das contas e vício em bets levaram muitos brasileiros para o buraco neste ano. A inadimplência atingiu níveis recordes com mais de 80% dos consumidores endividados. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostra que 48,8% das dívidas apresentam atraso no pagamento acima de 90 dias.


O mês de outubro apresentou uma estabilidade no endividamento das famílias, mas ainda em um patamar extremamente elevado. A esperança de quem está no vermelho é que as verbas extras de fim de ano, como o 13º salário, permitam aliviar as contas. A proibição das bets também terá efeito sobre as dívidas, já que o fim das apostas online mirou barrar a gastança sem limite com os jogos.


A Peic apontou que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em outubro deste ano – um leve recuo em relação a setembro, quando o índice foi de 81,7%. A pesquisa detalha que mais de oito em cada dez famílias estão com a renda comprometida com obrigações financeiras a vencer.


O estudo informa que a inadimplência das famílias teve uma pequena queda. A taxa caiu de 29,6% em setembro para 29,3% em outubro. De acordo com a análise da CNC, o tempo médio do atraso nas contas baixou levemente de 65,3 dias para 65,1 dias. A Peic revelou que 19% dos lares continuam com mais da metade da renda mensal comprometida apenas com o pagamento de dívidas.


“Não queria chegar no fim de ano ainda com tanta conta atrasada. Mas tive problema de saúde, gastei muito neste ano com remédios. A gente fica sem pagar uma parcela das contas e vira uma dívida tão alta que não dá mais para pagar. Estou tentando limpar meu nome”, lamenta a faxineira, Maria de Lurdes Santana.


Ela conta que todos na casa dela estão com o nome no serviço de proteção ao crédito. A faxineira reclama que os juros fazem uma conta de R$ 100,00 em atraso virar mais de R$ 1 mil rapidinho. Maria de Lurdes passou pelo drama das bets. “Meu filho mais novo virou um viciado em jogos no computador. Mas antes era apenas jogos normal. Depois que ele entrou no tigrinho e conheceu outras bets, a vida dele acabou. Tem uma dívida gigante”, conta.

 


BC X JUROS


Um assunto que movimentou a economia e o governo nesta semana foi a manutenção da taxa de juros básica em 13,75% ao ano. Muitos especialistas e empresários esperavam por mais um corte e a manutenção do viés de queda da Selic (taxa básica de juros da economia brasileira).  O Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central havia promovido uma sequência de cinco cortes.


O coordenador do Curso de Ciências Econômicas da Universidade São Francisco (USF), Ricardo Dourado, analisa que, neste momento com o cenário geopolítico e econômico no mundo, o BC fez certo em manter a Selic no patamar que estava no mês anterior. Entretanto, ele espera que esse quadro mude em dois ou três meses, voltando para um viés de baixa.


“Na minha avaliação, o BC acertou ao fazer uma pausa nos cortes na reunião do Copom nesta semana. A inflação voltou a pressionar significativamente o mercado econômico e havia motivo para esperar. Mas manter os juros nesse nível por muito tempo vai acabar encarecendo o crédito e seguros, investimentos e, consequentemente, a geração de empregos. Se a inflação e as expectativas voltarem a se aproximar da meta, faz sentido em algum momento, o mais breve possível, retomar os cortes”, diz.


Dourado observa que o sinal emitido pelo BC com a decisão é de cautela. O economista salienta que a economia está perdendo um pouco o ritmo com a inflação voltando a acelerar.


“As expectativas acabam se afastando da meta do governo. Então, ao manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, o Banco Central, talvez, queira perceber ou entender uma melhora mais consistente antes de voltar a baixar os juros. O que deve acontecer nos próximos meses”, aposta o coordenador do Cursos de Ciências Econômicas da USF.

 


AJUSTE NAS CONTAS


Desde que o presidente Luiz Inácio da Lula da Silva foi reeleito para um novo mandato, existe uma pressão para o governo adote um modelo de corte de gastos para conter o avanço da dívida pública. O momento agora é de embate de visões entre representantes do mercado financeiro, economistas ortodoxos, governo e economistas desenvolvimentistas e progressistas.


Para Dourado, o governo não deve promover cortes que afetem programas sociais e investimentos prioritários. Lula garantiu durante a campanha do segundo turno que não faria ajuste fiscal penalizando a população. O adversário derrotado, Flávio Bolsonaro, tinha na agenda econômica um tesouraço que impactaria severamente programas importantes como o bolsa-família e o reajuste das aposentadorias com ganho real acima da inflação.


“Juros altos sabemos que, do ponto de vista econômico, pesa na dívida pública e uma economia crescendo relativamente menos também dificulta de forma específica o ajuste dessas contas no cenário de desaceleração mundial.  Eu preservaria os programas que atendem de certa forma as famílias de baixa renda, as mais vulneráveis e os investimentos prioritários. Dá para abrir espaço, claro, no orçamento, sempre revendo gastos e benefícios fiscais e que acabam entregando pouco resultado”, indica o economista. 

LIMPAR O NOME


Os serviços de proteção ao crédito estão com mutirões para limpar o nome dos inadimplentes. Os programas prometem redução de custos financeiros e parcelamento. O governo Lula lançou neste ano o Desenrola para baixar o índice de inadimplência no país.

Com a chegada do fim de ano, e dinheiro extra entrando no bolso, hora de apertar os cintos para diminuir, ou mesmo acabar, com o endividamento.


“Meu 13º salário já está todo gasto com as contas em atraso. Pretendo fazer uns bicos de faxina em eventos para aumentar a renda e conseguir limpar meu nome. É muito ruim não poder fazer um crediário. Não devo porque gosto, não. Tive um problema de saúde e gastei todo meu dinheiro com remédios”, afirma a faxineira.

Dourado aconselha os inadimplentes a reverterem parte do 13º salário e férias, caso o consumidor vá receber esse dinheiro no fim deste ano, para pagar contas em atraso. Com os juros exorbitantes, uma dívida pode se transformar em impagável.


“É um ponto bastante importante usar as verbas extras para pagar dívidas em atraso. Eu começaria separando o dinheiro das contas essenciais para manter o equilíbrio do orçamento doméstico. Com o que vai sobrar, vale a pena procurar os credores começando pelas dívidas com juros mais altos e negociar um desconto para pagar à vista. Se for parcelar, é sempre importante olhar qual o valor total final e se, de fato, a parcela cabe no orçamento dentro de um mês normal”, explica o economista.

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