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Em 12 meses, exportações da RMC para os EUA caem 8,1% e região perde US$ 69 milhões

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    Adriana Leite
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil preocupa ainda mais as indústrias locais



Governo Lula aciona a OMC para contestar sobretaxas de Trump aos produtos brasileiros. Foto: Porto de Santos
Governo Lula aciona a OMC para contestar sobretaxas de Trump aos produtos brasileiros. Foto: Porto de Santos

As exportações das empresas instaladas na Região Metropolitana de Campinas (RMC) para os Estados Unidos caíram 8,1% nos últimos 12 meses. Estudo do Observatório PUC-Campinas detalhado no informativo deste mês aponta que as vendas de bens locais para os norte-americanos somaram US$ 781,3 milhões (FOB), no período de julho de 2025 a junho de 2026.


Se comparado com os US$ 850,3 milhões de 12 meses contados de julho de 2024 a junho de 2025, a perda foi de US$ 69 milhões. Os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações da RMC, atrás apenas da Argentina.


A situação pode ficar ainda mais complicada com o novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, que tem como objetivo interferir no processo eleitoral do país para beneficiar o candidato Flávio Bolsonaro, do PL, segundo analistas políticos. No total, as novas tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano chegam a 37,5%.


Apesar dos esforços do governo brasileiro e do empresariado, nenhuma argumentação demoveu o governo americano a retirar as sanções comerciais com acusações que não se sustentam, especialmente porque existe um superávit na balança comercial entre os dois países favorável aos Estados Unidos - US$ 14,4 bilhões em 2025.


O governo Lula abriu linhas de crédito para socorrer os setores mais afetados pelo novo tarifaço e continua buscando saídas que impeçam o país de ser penalizado por Trump. O Planalto entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) com contestação formal em decorrência da aplicação das tarifas. O país também pode acionar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos.


 

VIÉS POLÍTICO


Entidades empresariais criticaram o tarifaço e pediram novas rodadas de diálogo para resolver o problema. Em nota, o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e 1º vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Rafael Cervone, afirma que o argumento para mais essa sobretaxa é improcedente, referindo-se aos 12,5% aplicados na última sexta-feira que se somaram aos 25% anunciados no começo de julho


“O Brasil é um dos maiores signatários das convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sendo aderente a 66 delas, com destaque para os pactos contra o labor infantil e o forçado, consubstanciados nas de números 29, 105, 138 e 182. Ademais, temos uma das mais rígidas legislações trabalhistas do mundo, forte fiscalização e as punições são severas”, aponta.

Cervone reforça na nota que “é grave que acusações dessa natureza, relacionadas ao trabalho forçado, sejam utilizadas para justificar novas restrições comerciais sem a devida comprovação concreta”.


Para ele, “trata-se de um argumento que, além de atingir a imagem internacional do Brasil, reforça a percepção de que as medidas adotadas extrapolam critérios estritamente técnicos e comerciais”.


O presidente do Ciesp pede que “o governo brasileiro intensifique os esforços no campo da diplomacia econômica, desviando-se do viés político que a tarifação dos Estados Unidos parece ter, conduzindo as negociações com serenidade, firmeza e base em argumentos técnicos e econômicos”.


“A entidade também considera acertada a criação de linhas de crédito com juros menores, recém-anunciadas pelo governo, para apoiar as empresas afetadas, mas ressalta que medidas emergenciais não substituem a necessidade de restabelecer condições equilibradas para o comércio bilateral”, diz Cervone.


 

IMPOSIÇÃO E AMEAÇA


Os repetidos tarifaços aplicados por Donald Trump a vários países no mundo, e com mais força contra governos nos quais o presidente dos Estados Unidos tem diferenças ideológicas e interesses econômicos, mostra que a motivação passa longe de embasamento técnico.


“Não me parece que neste momento os americanos queiram negociar. Os termos impostos ao Brasil não têm características tradicionais de negociações comerciais em que se buscam resultados do tipo “ganha-ganha”. Esse perfil de negociação comercial, que prevaleceu desde o pós-guerra, foi abandonado pelos americanos. O que eles sugerem agora ao Brasil é uma negociação falsa, cujos resultados possíveis favorecem apenas os Estados Unidos”, comenta o economista, professor universitário e presidente do Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais (IPEES) , José Augusto Ruas.

O especialista observa que duas frentes de atuação da política externa americana impactam a relação comercial com o Brasil e o posicionamento em relação a América Latina: a Doutrina Donroe seguida pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que tem como base o elemento político e a ampliação do controle da ultradireita no continente; e a posição do representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, responsável pelas ações comerciais de Trump. Greer acredita que, a partir dos anos de 1980, os Estados Unidos foram profundamente prejudicados com a globalização.


Ruas aponta que a mídia brasileira divulgou uma carta dos norte-americanos com exigências extremamente favoráveis aos EUA para que o Brasil evitasse as sobretaxas. “A primeira exigência era a restrição de investimentos da China no Brasil. A segunda era a abertura de mercados no Brasil para produtos norte-americanos sem nenhuma contrapartida, afetando severamente setores como automotivo, tecnologia e agricultura. A terceira seria a consulta às big techs antes da regulação ou adoção de qualquer medida para o setor", comenta.


“Não há nenhum fundamento para a aplicação das duas novas tarifas contra os produtos brasileiros. Obviamente, todas as exigências dos norte-americanos significam um absoluto atentado contra a nossa soberania, tanto do ponto de vista comercial quanto do ponto de vista institucional regulatório. Os americanos não querem uma negociação.  Eles querem uma subserviência. Eles querem uma rendição nossa”, critica o economista.

 

A saída para reduzir os impactos desse ataque claramente com cunho político do governo Trump contra o Brasil vai exigir destreza do governo Lula. Ruas ressalta que o uso da Lei da Reciprocidade pode gerar uma escalada do presidente norte-americano contra o país. O uso da diplomacia, com a medida adotada pelo Brasil em acionar a OMC, será mais um fato para marcar a posição do país do que obter um resultado prático e rápido.


“Outras ações importantes serão a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros taxados pelos Estados Unidos e a oferta de crédito e ajuda às empresas mais prejudicadas pelo tarifaço do governo Trump”, indica o especialista.


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