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Setor industrial deve ficar atento aos efeitos do Acordo Mercosul-União Europeia

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    Adriana Leite
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Segmentos importantes como veículos, metalmecânico e farmacêutico poderão perder mercado e empregos, segundo especialista



Acordo Mercosul-União Europeia é fechado após 25 anos de negociações. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Acordo Mercosul-União Europeia é fechado após 25 anos de negociações. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil


Depois de 25 anos de muitas discussões, o Mercosul firmou o acordo de livre comércio com a União Europeia. A nova zona comercial, a maior do mundo, chega em um momento de movimento forte antiglobalização, e de uma nova onda de unilateralismo capitaneada, principalmente, pelo presidente norte-americano Donald Trump. A projeção do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) é que o acordo eleve em 0,46% o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, que representará US$ 9,3 bilhões (em valores correntes em base em 2023) até 2040.

 

Mas será que todo mundo ganha com esse acordo? Estudos de órgãos governamentais e de entidades mostram que a grande beneficiada no Brasil será a agricultura, que hoje convive com barreiras comerciais e tarifárias que impedem um avanço maior sobre o mercado europeu – ainda que o acordo mantenha muitas proteções e salvaguardas que privilegiam os produtores da Europa.

 

Já para a nossa indústria há boas previsões, mas também há riscos que acendem o sinal de alerta para não aprofundar a desindustrialização. Tudo depende do segmento de atuação, do produto comercializado e da modernização do parque industrial e dos processos produtivos. Mais do que nunca, quem for competitivo, e estiver preparado, terá vantagem na hora de brigar com os concorrentes europeus. Será necessário que o governo estabeleça uma política eficaz para o setor industrial.

  

O professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Paulo Ricardo da Silva Oliveira, analisa que o acordo é melhor para o Brasil e o Mercosul do que para a União Europeia. “O que acontece quando são criadas áreas de livre comércio ou de comércio facilitado? Ocorre, no geral, uma especialização produtiva, ou seja, os setores nos quais somos mais competitivos tendem a ganhar e há crescimento da produção. Mas nos setores onde somos menos competitivos, o impacto pode ser a redução da produção e corte de empregos”, aponta.

 

Para ele, nessa balança fica claro que o maior ganho projetado com o acordo é para a agricultura brasileira.  “Quando analisamos os detalhes, há setores que vão ganhar mais e outros que vão sofrer algum impacto negativo. Podemos pensar que a principal vantagem do acordo para a indústria brasileira é a melhora do ambiente macro, novos investimentos e o estímulo ao ganho de eficiência”, observa o especialista.

 

Oliveira cita que estudo do IPEA de 2024 mostra que na indústria segmentos como calçados, couro, papel e celulose, e metais não ferrosos devem ter aumento nas vendas e irão se beneficiar do acordo. Contudo, em áreas nas quais a indústria europeia tem vantagem competitiva (como automotiva, metalmecânica e têxteis), pode acontecer queda de produção e corte de postos de trabalho. Mas lembrando que, neste momento, são apenas estimativas.

 

 

REGIÕES INDUSTRIAIS

 

Os consumidores brasileiros já esperam ávidos pela queda no preço de produtos como queijos, vinhos, cosméticos, azeites e chocolates que chegam do continente europeu. Mas o acordo vai muito além dos produtos que chegam na ponta. Há vários aspectos que ainda vão demandar muita discussão como os impactos sobre o meio ambiente, que não foram foco nos termos do documento.

 

Em nota, o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Rafael Cervone, ressalta que ao incorporar compromissos equilibrados o acordo fortalece o Mercosul.


“Ao incorporar compromissos equilibrados em áreas como sustentabilidade, compras governamentais, facilitação de comércio, defesa comercial e cooperação regulatória, o Acordo Mercosul–União Europeia fortalece o Mercosul como plataforma de inserção internacional e abre novas oportunidades para a indústria brasileira agregar valor, gerar empregos qualificados e ampliar sua presença em mercados de alto padrão. Trata-se de um avanço estrutural que contribui para o crescimento econômico, a estabilidade institucional e o desenvolvimento sustentável de longo prazo”, diz Cervone.

  

IMPACTO LIMITADO

 

Apesar do otimismo do governo, de empresários e de especialistas, estudo da Insper Agro Global mostra que, mesmo para o setor agrícola brasileiro, o acordo entre Mercosul e União Europeia terá impacto comercial limitado em decorrência da permanência de barreiras protecionistas.

 

Em nota, o Insper aponta que, em termos gerais, o estudo estima que o aumento anual das importações europeias de produtos de origem brasileira (todos os bens) será entre US$ 1,2 bilhão e US$ 3,8 bilhões após o décimo ano de vigor efetivo do acordo – ganho projetado de 2% a 7% no comércio.

 

No outro lado dessa balança, as importações de produtos do bloco europeu (todos os bens) pelo Brasil são estimadas entre US$ 5 bilhões e US$ 8 bilhões, também a partir do décimo ano do acordo em operação. O avanço anual será acima de 10% no período. Os produtos que ganharão destaque nesse fluxo comercial serão veículos, máquinas e equipamentos, cosméticos e produtos farmacêuticos.

 

Para os especialistas do Insper Agro Global, “na prática, o acordo configura-se como uma porta apenas moderadamente aberta ao comércio, permitindo ganhos pontuais, mas sem promover uma grande revolução nas relações entre os blocos”. Eles ressaltam ainda que “ao invés de uma liberalização expressiva, trata-se de um regime de ´flexibilização controlada´, que beneficia algumas atividades, mas que ainda impõe desafios”.

 

  

NOVA HEGEMONIA

 

O cenário macroeconômico global e geopolítico sinaliza que uma nova hegemonia política e econômica ganha força, especialmente com a agressividade do presidente norte-americano Donald Trump que até aliados históricos vem ameaçando com tarifas e força militar. Para o especialista em comércio internacional, a China desponta como a nova superpotência que vai comandar o mundo.

 

“O acordo entre Mercosul e União Europeia é estratégico neste momento diante da conjuntura global. É uma forma de dar resposta às ações do presidente norte-americano Donaldo Trump. A postura do governo dos Estados Unidos traz um grande risco para a hegemonia americana no mundo. A China se fortalece como esse novo poder econômico que vai comandar o planeta”, aposta Oliveira.

 

Os chineses já têm uma presença forte no Sul Global com investimentos, parcerias e fluxo comercial intenso. “Tudo indica que a China vai deter a nova hegemonia econômica do mundo. Os chineses têm parceria sólida com o Sul Global. Para a Europa, é estratégico, nesse cenário, ter um acordo comercial com o Mercosul. A ordem geopolítica vem mudando com as guerras, conflitos e as ações do presidente norte-americano Donald Trump”, analisa o especialista da PUC-Campinas.

 

 

ANTIGLOBALIZAÇÃO

 

Se por um lado firmar o acordo quando o mundo está sob forte ataque do presidente dos EUA mostra força, a outra face da moeda é que a demora de duas décadas e meia esbarra em uma nova ordem mundial com o forte movimento antiglobalização e uma onda de unilateralismo capitaneada por Trump.

 

“Vivemos hoje um movimento antiglobalização, as guerras e revoluções. Tudo vai sinalizando para um mundo menos multilateral; um mundo menos globalizado. Os Estados Unidos têm uma postura bastante nacionalista agora. Há um recuo na valorização das instituições multilaterais, com a ONU (Organização das Nações Unidas) e a OMC (Organização Mundial do Comércio), que surgiram para construir um mundo mais globalizado, com menos barreiras comerciais e mais integrado. A criação de áreas de livre comércio, como o bloco Mercosul e União Europeia, é um anti-movimento”, analisa Oliveira.



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