Antes da medalha vem o desconforto
- Juliana Facchin

- há 7 dias
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A gente costuma olhar para as conquistas das pessoas e enxergar só a “medalha”

Quem corre e já participou de alguma prova sabe que o momento mais difícil quase nunca é o final. Normalmente é aquele trecho em que o corpo começa a cansar, o ritmo cai e a cabeça entra em negociação: “será que dá para parar e andar só um pouquinho?” Ou “será que eu preciso mesmo terminar?”
Na carreira, isso também acontece.
A gente costuma olhar para as conquistas das pessoas e enxergar só a “medalha”. A promoção, a mudança de área, o reconhecimento, o novo cargo, o projeto que deu certo. Mas quase ninguém fala sobre o que vem antes disso. E talvez seja aí que muita gente se frustra no caminho.
Vem o desconforto de aprender algo novo quando você ainda não se sente pronta. Vem a insegurança de assumir responsabilidades maiores. Vem a sensação de estar se esforçando muito e vendo pouco resultado.
Crescer, na prática, é desconfortável. E o mais difícil é aceitar isso. A gente insiste em achar que tem alguma coisa errada… mas não tem. Faz parte.
Eu mesma já vivi muitas fases assim. Momentos em que parecia mais fácil voltar para o lugar seguro do que insistir no novo. Projetos que não deram certo de primeira. Mudanças que trouxeram mais dúvidas do que certezas. E, ainda assim, foram esses períodos que mais me fizeram evoluir.
Na corrida tem uma hora que não dá mais pra ir só no embalo do começo. Quem corre sabe exatamente de qual momento eu estou falando. É ali que entra a disciplina, o foco e, principalmente, a decisão de continuar mesmo sem garantia. E essa decisão, na maioria das vezes, não vem com confiança.
Na carreira também é assim.
Tem fase que você tá se esforçando muito e o reconhecimento não vem. E aí começa aquela comparação meio inevitável… parece que todo mundo tá andando mais rápido que você. A famosa grama “mais verde” do vizinho. Mas é justamente aí que muita gente desiste e, ironicamente, é também onde o crescimento começa a acontecer.
Nem todo desconforto é sinal de que algo deu errado. Muitas vezes, é só sinal de que alguma coisa está mudando. E a mudança quase sempre vem antes da sensação de segurança.
E não, isso não é sobre romantizar o sofrimento. É sobre entender que crescimento exige adaptação, paciência e um certo nível de coragem. Não aquela coragem de quem não tem medo, mas a de quem segue mesmo com ele.
Porque a medalha não aparece no meio do percurso. Ela aparece depois que a gente decide continuar.
E, olhando de fora, às vezes parece que grandes conquistas acontecem de repente. Mas não acontecem.
Esse fim de semana, por exemplo, ocorreu a maratona de Londres. Teve gente fazendo história ali, em um nível que parece quase impossível para a maioria de nós.
Mas o que quase ninguém vê é o caminho até ali
Antes daquele momento, teve muito treino desconfortável. Muita repetição. Muitos dias em que continuar não era a escolha mais fácil.
É isso que sustenta o resultado. Não é o dia da medalha que todo mundo vê.
Talvez o segredo não seja fugir do desconforto, mas aprender a atravessar esse trecho com mais consciência. Ajustar o ritmo, respirar melhor e seguir um passo de cada vez. Vale andar, inclusive (quem corre sabe disso).
E tem uma coisa importante aqui: atravessar não significa acelerar o tempo todo. Às vezes, significa respeitar o próprio ritmo para conseguir continuar.
Uma hora o corpo entende, a mente acompanha e o resultado vem. E quando vem, a gente percebe que não foi só sobre chegar, mas sobre quem a gente se tornou no caminho.
Experiência é tudo. O resto é tentativa.
Juliana Facchin escreve sobre carreira, experiências e vida real. É Jornalista de formação, executiva, palestrante, mãe de dois, corredora, curiosa por essência e eterna aprendiz em movimento.
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