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Dar conta de tudo tem um preço

  • Foto do escritor: Juliana Facchin
    Juliana Facchin
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Existe uma linha tênue entre ser comprometida e se sobrecarregar; entre buscar resultado e se cobrar além do que é sustentável


A colunista Juliana Facchin diz que não adianta dar conta de tudo e se perder por dentro. Foto: Arquivo Pessoal
A colunista Juliana Facchin diz que não adianta dar conta de tudo e se perder por dentro. Foto: Arquivo Pessoal


No meu penúltimo texto, falei sobre como o trabalho é meio, não fim. Mas a vida real tem um detalhe importante: às vezes, esse “meio” cresce demais.


E quando a gente percebe, já está desequilibrando todo o resto.


Tem uma fase da vida em que a gente acredita que consegue dar conta de tudo: trabalho, casa, filhos, saúde, treino, amigos, metas, entregas, prazos… tudo ao mesmo tempo. E, de preferência, fazendo bem feito.

No começo, até dá.


A gente se organiza, se vira, encaixa aqui, resolve ali. Tem até um certo orgulho de conseguir sustentar esse ritmo. De olhar para a agenda cheia e pensar: “tá puxado, mas tá funcionando”.


Só que, em algum momento, começa a pesar.


O cansaço deixa de ser só físico. Vira mental. Vira irritação sem motivo claro. Vira aquela sensação de estar sempre atrasada, sempre devendo alguma coisa, sempre tentando alcançar um ritmo que nunca desacelera.


E o mais difícil: muitas vezes isso acontece sem a gente perceber.


Porque por fora, está tudo certo. O trabalho anda. A casa funciona. As entregas acontecem.

Mas por dentro, a conta começa a chegar.


E eu sei disso não só olhando de fora.


Já vivi fases em que essa balança ficou completamente desajustada. Em que o trabalho ocupou espaço demais e a conta veio em forma de cansaço, sobrecarga mental e um desgaste que não dá para ignorar.

Demorei um tempo para entender que aquilo não era normal. E mais ainda para ajustar.

Hoje, eu não romantizo mais esse tipo de entrega.


Valorizo o equilíbrio como pessoa, como líder e também como liderada.


E não é só uma sensação.


Hoje, mais da metade das pessoas relata algum nível de esgotamento no trabalho. Cada vez mais gente tem precisado parar por causa da própria saúde mental.


O que antes parecia exceção está virando regra.


E quando isso vira regra, talvez não seja só uma questão individual.


E o trabalho, que deveria ser uma troca saudável, começa a virar peso. Não porque ele seja ruim. Mas porque ele passa a ocupar espaço demais.

Existe uma linha tênue entre ser comprometida e se sobrecarregar. Entre buscar resultado e se cobrar além do que é sustentável.


E essa linha é muito pessoal.


Ninguém de fora consegue medir exatamente onde ela está. Só você sabe.


E talvez seja aqui que entra uma parte difícil, mas importante: escolha.


Nem sempre o contexto muda rápido. Nem sempre o trabalho se adapta. Nem sempre as expectativas diminuem.


Mas a forma como a gente se posiciona diante disso pode mudar.


Às vezes, isso significa rever o ritmo. Dizer não. Redefinir o que é prioridade agora.


E até questionar se o espaço em que você está ainda faz sentido para esse momento da sua vida.


E tá tudo bem.


Tudo bem não dar conta de tudo. Tudo bem não se encaixar em todas as expectativas. Tudo bem escolher se preservar.


Isso não te faz menos comprometida. Te faz consciente.


Talvez o ponto não seja dar conta de tudo. Talvez seja entender o que realmente precisa caber agora.


Porque a vida não é um conjunto de áreas separadas. É uma só.


E quando uma parte começa a consumir todas as outras, o desequilíbrio aparece.

Ajustar isso não é simples. Não é rápido. E nem sempre é confortável.


Mas é nesse ajuste que a gente volta a ter energia para sustentar o que realmente importa.

O trabalho precisa fazer sentido. Precisa ser troca. Precisa caber na vida e não o contrário.


Porque, no fim, não adianta dar conta de tudo por fora e ir se perdendo por dentro.

Tem uma coisa que a gente aprende na prática: quanto mais a gente mostra que dá conta de tudo, mais coisas aparecem para dar conta.


E se a gente não coloca limite, esse ciclo não acaba.


E quem paga essa conta é a gente.


Experiência é tudo. O resto é tentativa.




Juliana Facchin escreve sobre carreira, experiências e vida real. É Jornalista de formação, executiva, palestrante, mãe de dois, corredora, curiosa por essência e eterna aprendiz em movimento.



Saiba mais sobre o colunista na página Sobre  



As opiniões aqui expostas refletem a visão do autor do artigo e, não necessariamente, do blog. Este é um espaço plural para debate amplo de ideias.

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