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Morte de Gisele expõe a misoginia que a lei ainda se recusa a nomear

  • Foto do escritor: Patrícia Penzin
    Patrícia Penzin
  • há 9 horas
  • 2 min de leitura

Homens querem mandar nos corpos, carreiras profissionais e nas vidas das mulheres



Mensagens encontradas no celular da vítima comprovam ameaças e misoginia. Foto: Reprodução/Redes Sociais
Mensagens encontradas no celular da vítima comprovam ameaças e misoginia. Foto: Reprodução/Redes Sociais

A morte de Gisele Alves Santana, soldado da Polícia Militar de São Paulo, assassinada com um tiro na cabeça, cuja autoria do crime é apontada pela Polícia Civil como sendo do marido, tenente-coronel Geraldo Neto, é mais que um feminicídio. É a materialização de algo que permanece invisível nas estruturas que sustentam a violência contra mulheres: a misoginia.


As mensagens trocadas entre eles revelam o que milhões de mulheres brasileiras conhecem tão bem: o cotidiano de humilhação que precede a agressão física. O tenente chamava Gisele de burra, ignorante, estúpida. Em uma das mensagens, disse que "lugar de mulher é em casa, cuidando do marido."


O problema é que vivemos em um país onde essa declaração circula livremente. Homens a repetem em bares, em grupos de WhatsApp, em conversas de família. A misoginia é o solo fértil onde nasce toda violência contra mulheres.


É uma ideologia que organiza relações de poder, que justifica abusos psicológicos, agressões, violações e causa essa epidemia de mortes de mulheres. Quando um homem acredita que "lugar de mulher é em casa", ele está reivindicando o direito de controlar o corpo, a carreira, a liberdade e a vida de uma mulher.


Nesse cenário, a criminalização da misoginia é o reconhecimento de que essa ideologia funciona como um sistema de dominação que alimenta todas as formas de violência contra mulheres. Quando a lei não nomeia a misoginia como crime, ela permite que homens construam narrativas de controle sem consequências legais.

Permite que humilhem, que controlem, que isolem, que ameacem. E quando finalmente matam, a defesa vem com histórias de crime "passional", como se a morte de uma mulher fosse um acidente inevitável e não o resultado previsível de uma ideologia que a desumaniza e objetifica.


O machismo estrutural que Gisele enfrentava não era um problema pessoal entre um casal. Era a manifestação de uma estrutura que permeia instituições, inclusive a Polícia Militar e o Judiciário. Gisele não morreu porque seu marido perdeu a cabeça em um momento de fúria. Ela morreu porque viveu em um país onde um homem pode dizer que "lugar de mulher é em casa" e continuar sendo promovido, respeitado, considerado um homem de bem. 


A mudança estrutural que o Brasil precisa não passa apenas por aumentar penas de feminicídio. Passa por criminalizar a ideologia que o sustenta; passa por reconhecer que a morte de Gisele foi uma consequência previsível de uma sociedade que permite que homens tratem mulheres como propriedade descartável.

 

Enquanto isso não acontecer, continuaremos vendo mulheres sendo mortas por homens que acreditam ter direito sobre seus corpos e suas vidas. E continuaremos chamando isso de crime passional, de relacionamento tóxico, de tragédia pessoal. Quando na verdade é o que é: machismo estrutural, resultado direto de uma misoginia que a lei ainda se recusa a nomear como crime.



Patrícia Penzin é jornalista especializada em Jornalismo Digital e Marketing; feminista; progressista e mãe de uma linda mulher. Saiba mais sobre os colunistas na página Sobre



As opiniões aqui expostas refletem a visão do autor da coluna e não, necessariamente, do blog. Este é um espaço plural para o debate amplo de ideias.

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