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Violência contra a mulher provoca perdas bilionárias no Brasil

  • Foto do escritor: Adriana Leite
    Adriana Leite
  • há 9 horas
  • 6 min de leitura

Epidemia de feminicídios tirou a vida de mais de 13 mil mulheres em 20 anos



Mulheres se mobilizam no país inteiro lutando contra a violência, por direitos e exigindo ações efetivas
Mulheres se mobilizam no país inteiro lutando contra a violência, por direitos e exigindo ações efetivas

Mariana (nome fictício) estava saindo do trabalho, perto das 19h, quando o ex-marido, com que havia vivido durante 18 anos (entre namoro e casamento), fechou o carro da executiva e a forçou a sair do veículo.


O homem não aceitava o fim do casamento. Mariana não imaginava o que ia acontecer naquele dia. O ex-marido a golpeou com uma faca várias vezes. Ela só não foi morta porque um segurança da empresa onde trabalhava partiu para cima do criminoso e o desarmou.


A partir daquele dia, a vida de Mariana mudou completamente: medo, depressão, desamparo, complicações de saúde, ameaças da família do agressor, julgamento negativo da família dela (muito conservadora) e uma crise financeira que a fez perder bens e quase ir para a sarjeta.


Um estudo divulgado em 2017 mostrou que as perdas com a violência doméstica no Brasil, tomando como base apenas o absenteísmo das mulheres (quando a mulher é obrigada a se afastar do trabalho), chegam a mais de R$ 975 milhões por ano no país. A análise faz parte de estudo elaborado pelo Instituto Maria da Penha e a Universidade Federal do Ceará.


O cenário deve ser ainda pior hoje com tantos assassinatos, tentativas de feminicídios, agressões, torturas, violência financeira e psicológica, e o machismo que quer invisibilizar o sexo feminino promovendo a barbárie, o controle e o extermínio.


A situação de Mariana se transformou em regra nos dias sombrios nos quais as mulheres vivem em todo mundo e, em especial, no Brasil. Em 20 anos, 13.703 feminicídios foram registrados no país, de acordo com estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Mariana é mais um número nessa estatística desumana que transforma mulheres em potenciais alvos de homens. Mesmo com a Lei Maria da Penha e medidas protetivas, todos os dias pelo menos quatro mulheres são assassinadas no Brasil em crimes de feminicídio.


 

DEPENDÊNCIA FINANCEIRA


Durante muitos anos, o marido de Mariana foi o principal mantenedor da casa. Quando se casou, ela logo engravidou e os dois fizeram um acordo para que a executiva ficasse em casa nos dois primeiros anos de vida da criança.


É senso comum na sociedade acreditar que uma suposta submissão da mulher que sofre violência doméstica é provocada apenas por dependência financeira. A fundadora da ONG Me Too Brasil, Marina Ganzarolli, discorda dessa tese e avalia que outros fatores influenciam para que vítimas tenham dificuldades de sair de relacionamentos abusivos.


“Eu diria que o fator financeiro não é um dos principais motivos que levam muitas mulheres a viver em relacionamentos abusivos. Sempre teve esse mito, de que as mulheres não deixam o homem porque ela não vai conseguir sustentar as crianças sozinha, porque ela tem medo de perder a guarda das crianças, de perder a casa, de perder tudo”, afirma.


Marina Ganzarolli: fator psicológico
Marina Ganzarolli: fator psicológico

Marina reforça que é mito “porque as mulheres que denunciam não perdem a casa, não perdem a guarda das crianças”. “Todo divórcio tem uma perda financeira, mas o Poder Judiciário fixa a pensão para os filhos”, sublinha.


A fundadora do Me Too Brasil acredita que, mesmo as mulheres que usam a dependência financeira do agressor como argumento para não conseguirem sair do ciclo da violência, têm essa fala mais baseada na violência psicológica do que no fator dinheiro.


“Óbvio, o fator financeiro pesa, mas ele não é o determinante. Ele pode ser a desculpa determinante, mas de fato, na verdade, o que é determinante é o fator psicológico. Então, essa mulher consegue romper esse ciclo quando ela se empodera, quando ela passa a retomar a sua autoconfiança”, analisa Ganzarolli.


 

SOU UMA SOBREVIVENTE DO MACHISMO E DA BRUTALIDADE


“Nunca imaginei que aquele namorado gentil e carinhoso, um dia se transformasse em um machista assassino. Não consigo esquecer aquela noite em que quase morri esfaqueada por ele”, lamenta Mariana. As marcas da violência estão espalhadas pelo corpo dela e na alma.

O filho do casal ainda era uma criança de nove anos quando o crime aconteceu. “Meu filho chorava com medo de que eu morresse. Na escola, ele passou a ser uma criança introspectiva. A violência do meu ex-marido desestruturou a minha família. Meus pais, muito conservadores, me condenavam pela separação”, conta.


De uma hora para outra, a vida de Mariana virou um caos. “Quando meu filho fez três anos, decidi voltar a trabalhar. Eu havia combinado com meu ex-marido que ficaria fora do mercado de trabalho durante dois anos para cuidar do nosso filho. A partir do momento em que retomei a minha rotina profissional, senti que nosso relacionamento mudou”, narra.


Segundo a vítima, sem conseguir exercer o poder financeiro, o ex-marido passou a demonstrar desprezo pelo trabalho de Mariana. Ele também queria que o salário integral dela fosse depositado na conta bancária dele. Mais uma exigência foi que ele a levasse e buscasse todos os dias na empresa.


“Além do fato de eu ganhar mais do que ele que já o incomodava muito, meu ex-marido tinha um ciúme doentio. Não havia motivo, mas percebi que eu sempre fui um 'bem material' na vida dele. Talvez, não tivesse percebido durante muitos anos que aquele excesso de zelo disfarçava dominação e posse. Decidi me impor e ter a minha individualidade. Ele não aceitou e nossa vida juntos se transformou em um inferno”, diz. 

Depois de dois anos de um relacionamento em crise, ela resolveu se separar dele. “Demorei muito porque fui criada para casar, ter filhos, constituir família e ser feliz. Mas a vida não é assim, como nos contos de fadas. Sabia que enfrentaria dificuldades pessoais com a separação, mas nunca pensei que ele seria capaz de tentar me matar”, conta chorando.


O ex-marido saiu do apartamento do casal sem escândalo ou ameaças. Entretanto, todos os dias enviava mensagens pedindo para que o casamento fosse reatado. Mariana lembra que ele prometeu mudar, só que os dois já tinham tentado de tudo. “Eu sabia que ele estava mentindo. Não cedi e resolvi que seguiria a minha vida sem ele”, afirma.


No dia da tentativa de feminicídio, o ex-marido de Mariana informou a ela que eles precisavam conversar sobre uma viagem que ele gostaria de fazer com o filho. “Apenas avisei que não poderia naquele dia, pois tinha outro compromisso. E marquei com ele para o dia seguinte. Ele insistia que o encontro fosse pessoalmente. Tenho certeza de que ele havia premeditado tudo. Como não podia quando ele queria, meu ex-marido não suportou a recusa e decidiu agir”, conta.


Mariana recorda que o ex-marido fechou o carro dela na porta da empresa e desceu enfurecido do veículo dele. “Ele bateu na minha porta e pediu para que eu descesse para conversarmos. Não percebi que ele estava com uma faca embaixo da blusa. Desci para evitar um escândalo na porta da empresa”, relembra.


“Quando saí do carro, ele partiu para a agressão e começou a me golpear. Tentei me defender, mas não tinha força. Percebi o sangue escorrendo e caí. Ele continuou a me golpear e só parou quando o segurança da empresa conseguiu desarmá-lo”, diz

A vítima ficou quatro meses internada. Passou por diversas cirurgias. Teve órgãos perfurados como o intestino. Enfrentou as críticas dos pais que a culpavam por ter se separado do ex-marido. O filho do casal tem crises de pânico até hoje pelo medo de perder a mãe. A família do ex-marido queria que ela retirasse as acusações contra ele.


“Fiquei sem trabalho porque depois disso entrei em depressão, não tive o acolhimento necessário na empresa e então pedi demissão. Não tinha coragem de me olhar no espelho cheia de cicatrizes. Não queria sair de casa mais. Tive que vender bens para não ir morar na rua junto com meu filho. Vivo com medo até hoje desse homem e de qualquer homem que se aproxime de mim”, lamenta.

Mariana afirma que “vem se reerguendo aos poucos e que criou uma rede de apoio com amigas e algumas parentes”. Ela mudou da cidade onde vivia quando aconteceu a tentativa de feminicídio para tentar encontrar a vida e a paz que perdeu ao ser vítima do machismo do ex-marido.  


Ela comenta que não era feminista, mas sempre defendeu a igualdade de gênero e o direito da mulher de ser independente. “Contudo, hoje entendo que é preciso ser mais do que alguém que defende os direitos das mulheres. Tem que entrar na luta e exigir isso da família, das autoridades e da sociedade”, comenta.


Mariana acredita que é uma sobrevivente da brutalidade, do egoísmo e do machismo que matam mulheres todos os dias no mundo inteiro.

 

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