Vício em apostas: empresas e governos se mobilizam para combater transtorno que afeta milhares de brasileiros
- Adriana Leite

- 24 de jul.
- 10 min de leitura
Doença de saúde mental causa isolamento, endividamento, afastamentos do trabalho e do convívio social

No ano de 2024, a Previdência Social registrou a concessão de 3.039 benefícios de auxílio-doença relacionados a afastamentos por doenças mentais de trabalhadores de Campinas. Os dados constam do Observatório de Segurança e Saúde do Trabalho, que é uma parceria do Ministério Público do Trabalho (MPT) com o Ministério da Previdência Social.
A lista de enfermidades que afetam a saúde mental dos trabalhadores tem Síndrome de Burnout, ansiedade, depressão, transtornos de estresse, transtornos de adaptação e agora se soma a elas a ludopatia, que é o transtorno do jogo patológico - incluindo as apostas esportivas online.
O impacto do descontrole dos apostadores, que eleva o endividamento desenfreado, afeta a vida familiar, pessoal, social e chega no ambiente de trabalho. As empresas, entidades de classe e órgãos de Direito do Trabalho se mobilizam para combater a dependência em apostas esportivas e acolher os trabalhadores que adoecem com a compulsão.
De acordo com a Serasa, 83,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em maio deste ano no país – recorde histórico. A negativação foi motivada por vários fatores, como gastos no cartão de crédito e empréstimos bancários. Mas economistas, entidades empresariais, órgãos de defesa do consumidor e governos afirmam que as apostas online e jogos aprofundam a crise da montanha de dívidas de milhões de brasileiros.
Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise, aponta que 61% dos profissionais endividados relatam comprometimento da produtividade no trabalho. Na pesquisa, entres os trabalhadores inadimplentes, 47% ficam desatentos ou pouco produtivos, 42% produzem menos e 38% apresentam impaciência com os colegas.
A tarefa de lutar contra o transtorno relacionado às apostas e jogos não é fácil. A doença é silenciosa e tratá-la exige medidas que envolvam educação financeira, amparo psicológico, campanhas de conscientização, atenção das chefias para identificarem mudanças de comportamento, ambiente de trabalho acolhedor e diálogo com a família do trabalhador.
COMPLEXIDADE
O diretor de Saúde e Bem-Estar da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) Brasil, Luiz Edmundo Rosa, aponta que é importante compreender o contexto do endividamento das famílias brasileiras. Ele observa que, segundo a Serasa, o nível de endividamento das famílias atingiu em 2026 um patamar recorde: aproximadamente quatro em cada cinco famílias estão endividadas.
O diretor da ABRH diz que as áreas de Recursos Humanos precisam respeitar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e muitas das decisões que levam ao endividamento pertencem à esfera íntima dos empregados. Rosa comenta que “nesse contexto, as possibilidades de atuação da empresa são naturalmente limitadas”.

O especialista salienta que, no caso das apostas esportivas e bets, o cenário é ainda mais complexo. “Muitas pessoas já chegam altamente endividadas e passam a comprometer ainda mais sua capacidade de pagamento. Novamente, a decisão de apostar é individual”, analisa.
Para Rosa, as empresas podem oferecer programas de educação financeira aos empregados e, sempre que possível, estendê-los aos familiares, uma vez que o endividamento afeta todo o núcleo familiar, com forte impacto à saúde mental.
“É fundamental orientar os líderes, em todos os níveis da organização, a manter um diálogo próximo com suas equipes, buscando identificar sinais de dificuldades financeiras e, quando necessário, encaminhar esses casos à área de Recursos Humanos para o acolhimento adequado”, orienta o diretor da ABRH.
O executivo afirma que o acolhimento dos empregados é um fator decisivo. Ele cita exemplos de organizações, como a Gerdau, que criaram estruturas específicas para atender os casos mais delicados. “Os empregadores estão cada vez mais conscientes da gravidade do endividamento de seus colaboradores, situação agravada pela expansão das bets. Entretanto, também são necessárias políticas públicas para um melhor controle desse problema”, comenta.
Rosa indica que uma iniciativa importante para as empresas é a realização de pesquisas confidenciais e voluntárias para avaliar o nível de endividamento de seus empregados. O diretor reforça que os questionários precisam ser cuidadosamente elaborados e acompanhados por uma estratégia consistente de comunicação e por programas efetivos de apoio, evitando a criação de expectativas que não possam ser atendidas.
“Com esse diagnóstico, a empresa passa a ter um mapa da situação financeira de sua força de trabalho. Essas informações, tratadas de forma agregada e preservando a confidencialidade dos participantes, podem orientar tanto a área de Recursos Humanos quanto as lideranças na definição de ações preventivas e no direcionamento dos esforços para os grupos ou áreas onde a concentração de problemas é maior”, explica.
O diretor afirma que a ABRH trata do tema em diversas oportunidades. Ele cita o CONARH Saúde 2026, no qual a entidade vem alertando os profissionais sobre a gravidade do problema e apresentando alternativas para o enfrentamento.
COMBATE
Os órgãos de Direito do Trabalho atuam para garantir os cuidados com a saúde mental dos trabalhadores e no combate às violações. O Ministério Público do Trabalho da 15ª Região de Campinas (MPT-15), com sede em Campinas (SP), recebe denúncias de abusos que geram transtornos mentais, incluindo relações interpessoais, questões relativas à estipulação de metas abusivas e cobranças excessivas.
“Além da ocorrência de outros fatores de risco reconhecidos pela legislação como relatos de assédio moral, assédio sexual e discriminação nas relações de trabalho”, afirma a procuradora do Trabalho do MPT da 15ª Região, Luana Lima Duarte Vieira Leal. Ela destaca que a entrada em vigor, recentemente, da Norma Regulamentadora (NR)-01 é uma ferramenta importante que estabeleceu regras a serem cumpridas pelos empregadores.

Luana Leal diz que as regras relativas à gestão dos riscos à saúde mental dos empregados no âmbito das relações de trabalho incorporadas com as normas vigentes da NR-01 pressupõem, em termos centrais, a necessidade de reconhecimento pelo empregador dos riscos relacionados à saúde mental e comportamental.
A procuradora comenta que um bom guia seria o estudo da organização do trabalho à luz, inclusive, de fatores de riscos reconhecidos na lista das doenças relacionadas ao trabalho, Portaria do Ministério da Saúde nº 1.999/2023, que após 24 anos sem modificações, introduz uma parte específica de transtornos mentais e comportamentais.
“Todas as questões devem ser analisadas e reconhecidas pelo empregador. A empresa deve antecipar os fatores de risco e geri-los como forma de intervenção positiva que possa mitigar, reduzir e eliminar, no caso dos riscos que não são inerentes ao trabalho, esses fatores de risco à saúde mental dos empregados”, diz a representante do MPT da 15ª Região.
Luana Leal afirma que o vício em jogos e apostas, também conhecido tecnicamente como ludopatia, tem se revelado um grave problema de saúde pública impactando a vida dos trabalhadores em seus aspectos familiares, social e laboral. “Nesse sentido, os órgãos de proteção do Direito do Trabalho têm se preparado em termos de estudo e conscientização sobre os males dessas práticas”, comenta.
Ela diz que o papel dos órgãos também é instar os empregadores e organizações a promoverem campanhas de conscientização voltadas aos trabalhadores nos termos do que já é observado na prática em relação a outros temas sensíveis. A procuradora destaca que é importante para a promoção da saúde do trabalhador.
Luana Leal orienta os trabalhadores que denúncias sobre situações que firam a NR-01 e tragam prejuízo à saúde mental dos empregados podem ser encaminhadas ao MPT pelo site www.prt15.mpt.mp.br.
PERFIL
O crescimento do transtorno relacionado aos jogos e apostas preocupa as autoridades de saúde e ganha espaço em centros de referência em saúde mental, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no atendimento aos pacientes que sofrem com o jogo patológico. Mas não é fácil para quem vive o problema entender que está com uma doença mental. Diferentemente de outros transtornos, como as drogas ou a bebida, os jogos demoram mais para afetar o corpo e os sinais são mais discretos.
De acordo com as análises que começam a surgir sobre os grupos mais propensos a sofrer com os transtornos psiquiátricos gerados por jogos e apostas esportivas, os homens estão no topo do perfil dos jogadores que podem passar do estágio da prática eventual - sem ser no modo problemático - para a fase que se transforma em dependência.
“O grupo de maior risco é formado por homens de baixo nível socioeconômico, baixa escolaridade, com profissões de baixo prestígio social. Os jogos e apostas aparecem como um elevador no qual ele vai subir mais rápido na escala social, mas o que acontece é que o elevador desce”, explica o médico psiquiatra e professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), Amilton dos Santos Júnior.
Um levantamento realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) avalia que os grupos mais vulneráveis ao endividamento gerado pela impulsividade em realizar apostas online são homens, famílias de baixa renda (até cinco salários mínimos), pessoas com mais de 35 anos e aquelas com maior escolaridade (2º grau ou mais).

O especialista da Unicamp afirma que o transtorno pode estar associado também a outros problemas como depressão, comorbidades e sofrimentos psicológicos. Alguns sintomas podem indicar que a pessoa vive o drama da compulsão em apostas e jogos: pedir dinheiro emprestado com frequência sem explicar o motivo ou inventar desculpas; dificuldade para dormir; isolamento para se esconder e apostar; depressão.
“Quando um paciente chega para tratamento temos várias abordagens. É importante um acolhimento inicial que seja motivacional e não punitivo, chantagista ou ameaçador. A pessoa já chega, muitas vezes, desmoralizada. Se ela procurou ajuda, quer apoio”, comenta Santos Júnior. O professor observa que a maioria dos pacientes chega na fase chamada de pré-contemplação, que é aquela na qual não enxerga a dependência nas apostas esportivas e jogos como um problema.
O médico psiquiatra diz que outra ação fundamental é o acolhimento da família. Ele comenta que os familiares também precisam de um amparo psicológico diante do desafio de ser o suporte de um paciente que vive o drama da compulsão em apostas e jogos.
Santos Júnior destaca que, a partir de 2027, o número da Classificação Internacional de Doenças (CID) do transtorno de jogos e apostas deve mudar. A alteração terá impacto nos serviços de saúde, Previdência Social e empresas. O especialista afirma que os empregadores devem implantar ações de prevenção à dependência de apostas esportivas e jogos. Ele exemplifica com campanhas de conscientização e o acolhimento de trabalhadores que enfrentem o transtorno psiquiátrico.
AÇÕES
O endividamento da população e o avanço dos transtornos em saúde mental provocados pelo abuso nas apostas esportivas online e nos jogos provoca reação de governos e órgãos de fiscalização para reduzir a sedução pelas bets .
Dados relevantes que mostram a expansão da inadimplência no Brasil e o mercado de bets:
💰R$ 3,7 bilhões foram apostados por beneficiários do Bolsa Família em casas de apostas online no mês de janeiro de 2025;
🧑🏽👩🏻🦰39,5 milhões de brasileiros fizeram apostas em bets no ano passado, segundo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil);
🎰19% desse total de apostadores, cerca de 7,5 milhões de pessoas, admitiram que comprometeram parte da renda com apostas e jogos de azar;
💵R$ 143 bilhões migraram do comércio varejista brasileiro, de janeiro de 2023 a março de 2026, para as plataformas de apostas online, segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC);
➕R$ 30 bilhões é o gasto médio dos brasileiros por mês nas plataformas de apostas online, segundo a CNC.
Os dados da CNC divulgados neste ano são contestados pelo Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), que critica a metodologia do estudo e contesta as informações.
As autoridades governamentais e os órgãos de fiscalização adotam medidas para combater a dependência da população em apostas online e nos jogos. As casas de apostas ilegais foram proibidas no país e os recursos estão sendo confiscados.
Influenciadores e empresas de comunicação estão na mira do Ministério Público em ações que proíbem publicidades de casas de apostas e pedem o ressarcimento de valores. As campanhas publicitárias das bets agora precisam colocar alertas determinados pelo Ministério da Fazenda. Vários estados barraram as propagandas das casas de apostas em locais públicos.
Em nota publicada no site do IBJR, a entidade afirma que “acompanha atentamente as manifestações de preocupação do Governo Federal e da sociedade em geral sobre a publicidade das apostas de quota fixa. Nesse contexto, reafirma seu total apoio às iniciativas destinadas a apurar eventuais e comprovadas práticas em não conformidade com a legislação vigente.”
A reportagem do Notas Econômicas entrou em contato com o IBJR para tratar acerca de medidas para combater o transtorno em apostas e jogos. Mas a entidade informou que não iria se posicionar.
DRAMA

“Comecei a jogar nas apostas esportivas online por brincadeira, entretenimento. Desde jovem eu gostava de jogos eletrônicos. Quem nunca teve o seu console de videogame? No início, ganhava um dinheiro aqui e outro ali nas plataformas. Isso me excitava e me fazia acreditar que poderia ganhar cada dia mais. Fui perdendo o controle e entrei em um buraco que não consegui sair até hoje”.
O relato de um executivo de 38 anos, e dependente de apostas, mostra como o transtorno pode destruir uma vida. Ele falou com o Notas Econômicas sob sigilo de nome e contou que já pensou até em suicídio após mergulhar em dívidas, depressão e causar enormes prejuízos financeiros e emocionais para a família.
“Meus pais e minha irmã me ajudaram a pagar uma parte das dívidas que eu contraí com as apostas. Eu tinha um relacionamento de muitos anos que terminou porque passei a ser uma pessoa insuportável e agressiva. No meu trabalho, meu rendimento caiu muito e passei a ser uma pessoa intratável”, relata.
O apostador só não perdeu o emprego porque foi afastado por esgotamento mental. A dívida dele passa dos R$ 80 mil com empréstimos (bancos e familiares). Até para agiotas ele devia, mas os pais venderam um imóvel e pagaram as dívidas. A família temia que ele fosse morto.
“Ainda sofro muito. A Copa do Mundo foi um período insuportável. As publicidades das bets inundaram a internet e a TV. Não vou mentir: sim, eu joguei. Estou me tratando com remédios, terapia e com a ajuda da minha família. Vivo ansioso e depressivo. Me arrependo de ter mergulhado no inferno das apostas. Nunca aceitei que estava doente e tinha um transtorno. Só entendi o buraco que eu me joguei quando meus pais tiveram que abrir mão, até de parte do dinheiro das aposentadorias deles, para pagarem as minhas dívidas”, fala com tristeza.
A família do executivo espera que ele supere a dependência e volte a ser o filho e irmão brincalhão e amoroso. “Meu irmão sempre foi motivo de orgulho para todos nós. Hoje é um homem devastado e com um transtorno mental. Só quem vive de perto a destruição causada pelas apostas esportivas entende a urgência em combatê-las”, afirma a irmã.




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