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Campinas é polo de desenvolvimento de tecnologias para transição energética limpa no Brasil

  • Foto do escritor: Adriana Leite
    Adriana Leite
  • 27 de abr.
  • 6 min de leitura

Centros de pesquisa e empresas investem em projetos como hidrogênio verde, biorrefinarias, bioquerosene para aviação e diesel verde



Coquetel enzimático do CNPEM pode ser usado na produção de biocombustíveis. Foto: Divulgação CNPEM
Coquetel enzimático do CNPEM pode ser usado na produção de biocombustíveis. Foto: Divulgação CNPEM


Em um mundo impactado pelas mudanças climáticas, o choque do petróleo provocado pela guerra de Donald Trump contra o regime dos aiatolás do Irã coloca os países em uma grande encruzilhada: como depender menos do petróleo? É impossível deixar de usar o óleo, mas a ampliação da utilização das fontes renováveis é um caminho sem volta. Campinas e região ganham papel fundamental nas políticas públicas brasileiras como polo de desenvolvimento de tecnologias para transição energética limpa.


A quarta transição energética da história já começou em laboratórios, salas de estudo e no trabalho de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e em uma cadeia de empresas e startups instaladas em Campinas e região. O documento Resenha Energética Brasileira, do Ministério de Minas e Energia, mostra que, em 2024, as fontes renováveis chegaram a 50% da matriz energética nacional.


A participação dos renováveis na matriz energética do Brasil é quatro vezes superior à média mundial que é de 14,2% e dos 13% dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O crescimento entre os anos de 2023 e 2024 (últimos dados disponíveis) foi de 0,9% no país. A energia solar com alta de 33,2%, a energia eólica com subida de 12,4% e os óleos vegetais com aumento de 28,35% puxaram esse avanço.





O professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Universidade Estadual de Campinas (FEEC/Unicamp), Luiz Carlos da Silva, afirma que o mundo passa pela quarta transição energética da história, mas, desta vez, a meta não será incluir novas fontes e, sim, substituir as fontes fósseis pelas renováveis.


“O desafio que temos hoje é maior do que em outras transições energéticas pelas quais o planeta passou. A quarta transição levará décadas e será realizada em um momento de crescimento do consumo de energia. Não será possível substituir completamente as fontes fósseis”, analisa Silva, que pontua ainda os entraves políticos que ficaram evidenciados na Conferência Mundial do Clima da Organização das Nações Unidas  (COP 30), realizada em 2025 no Brasil, que terminou sem um novo acordo global.  

O professor afirma que o cenário é de longo prazo, mas a descarbonização é um processo que, inevitavelmente, vai acontecer. A mudança passa pela eletrificação das matrizes energéticas. “Estamos falando de um crescimento nunca visto antes nas capacidades instaladas de fontes renováveis para a substituição das fontes fósseis. As matrizes elétricas deverão ser multiplicadas por duas, três ou quatro vezes o que temos hoje em apenas algumas décadas”, projeta.


Ele afirma que a transição demandará muito investimento e nesse ponto reside outro gargalo enorme de trilhões de dólares. Silva aponta que no Brasil a única fonte com capacidade para investir em volume gigantesco de recursos em energia renovável é o petróleo. O professor salienta que o tema é polêmico e gera discussões como a crise gerada pela autorização de pesquisa para exploração do petróleo na margem equatorial na foz do Rio Amazonas.

 

 

ECONOMIA E SUSTENTABILIDADE


Há dez anos, a Unicamp decidiu adotar ações para transição energética e mitigação dos impactos das atividades da universidade sobre o meio ambiente. O docente da FEEC/Unicamp detalha que as medidas resultaram em uma economia de R$ 15 milhões por ano nesse período apenas com a conta de luz.


“Para realizar os nossos primeiros projetos, fizemos a captação de recursos em chamadas públicas para eficiência energética em pesquisa e desenvolvimento. Captamos mais de R$ 50 milhões nessas chamadas. A universidade também investiu R$ 50 milhões nesses últimos dez anos. Ao todo, já foram investidos R$ 100 milhões”, informa.


Projetos de extensão combatem a pobreza energética
Projetos de extensão combatem a pobreza energética

O programa Campo 100% LED moderniza toda a rede de iluminação pública e dos prédios da universidade. Outro projeto é o Sustentabilidade no Ar que vai fazer a checagem da condição dos aparelhos de ar-condicionado e promover a troca. Silva afirma que mais uma ação é a expansão da capacidade de geração de energia alternativa no campus. A instituição está instalando o Laboratório de Programas e Projetos Integrados para Governança Energética Municipal que será um espaço para a interação com as prefeituras.


A universidade realiza ainda o Programa Olhos no Futuro que debate a transição energética em escolas públicas da periferia. Um grupo de alunos indígenas atua no Projeto Solar Rio Negro que capacita comunidades indígenas em energia fotovoltaica na Amazônia, no município de São Gabriel da Cachoeira. A iniciativa de extensão universitária concorre a um prêmio nacional da Fundação Banco do Brasil, em maio.  


Silva ressalta que o trabalho da Unicamp também tem como meta combater a pobreza energética e, para isso, é relevante promover o acesso à energia renovável, principalmente para as comunidades vulneráveis.


 

OPORTUNIDADES PARA A ECONOMIA VERDE  


Com a oferta de energia renovável, Silva aposta que o Brasil pode se transformar em uma plataforma de data centers no mundo. O professor da Unicamp afirma que existe sobra de energia limpa no mercado brasileiro que poderia alimentar os sistemas dos data centers, porém, além desse fato, é necessário analisar a disponibilidade de água. “A tecnologia também avança e temos projetos de data centers que reduzem bastante o consumo de água”, aponta.



CNPEM cria tecnologia modular para produzir hidrogênio verde
CNPEM cria tecnologia modular para produzir hidrogênio verde

Outros segmentos nos quais o Brasil pode ser um grande exportador são as tecnologias de produção do hidrogênio verde e os fertilizantes sustentáveis a partir da amônia verde. Porém, Silva alerta que “a produção do hidrogênio verde ainda é muito cara e é preciso ganhar escala em termos mundiais para a redução do preço que o torne competitivo em relação ao hidrogênio de fonte fóssil”.


O hidrogênio verde, segundo o especialista da Unicamp, também será fundamental para o desenvolvimento de combustíveis sintéticos. Todas essas tecnologias vão demandar tempo de desenvolvimento e escala para serem competitivas. No curto prazo, as oportunidades são na atração de data centers e de indústrias de produtos verdes.


Silva chama a atenção para a necessidade de resolver gargalos estruturais que o país ainda tem para utilizar todo o potencial da economia verde. Ele exemplifica com a produção de energia de fontes renováveis gerada em regiões, como o Nordeste, enquanto a industrialização se concentra no Sudeste. Para que o produto atenda as áreas de maior demanda, é preciso uma grande rede de transmissão.


Para o economista e presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos Econômicos e Sociais, José Augusto Ruas, existe a necessidade do desenvolvimento de novas energias para diminuir a dependência do petróleo. Entretanto, ele destaca que o posicionamento do Brasil na exploração do óleo e na produção dos derivados é excelente e deve ser usada a favor do país.


“Nosso posicionamento no mundo do petróleo é excelente e nossa dependência, do ponto de vista do uso de energia, deveria se valer mais da nossa posição. Do ponto de vista tecnológico e da indústria, uma transição energética hoje seria pior para nós. Temos tecnologia em alguns nichos pequenos em renováveis. Mas somos muito bem estruturados na cadeia de óleo e gás”, afirma.

 

 

POLO DE DESENVOLVIMENTO


O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) tem várias linhas de pesquisas e estudos em energia renovável e materiais renováveis. Em março deste ano, o centro lançou uma chamada pública para a distribuição de amostras do coquetel enzimático chamado de OpEn, focado na produção de biocombustíveis e bioprodutos no Brasil.

 

“O coquetel OpEn é uma tecnologia habilitadora para biorrefinarias, resultado de 15 anos de investimento e pesquisa em biotecnologia avançada, e que motivou a criação de uma área do CNPEM com potencial de geração de autonomia tecnológica de ponta a ponta para a produção nacional sustentável de energia e outros bioprodutos”, explica o diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do CNPEM, Mario Murakami, em nota.

Outro anúncio realizado neste ano pelo CNPEM foi a descoberta de método que transforma o óleo de destilação do etanol de milho em combustíveis renováveis, como bioquerosene para aviação e diesel verde. A enzima natural pode gerar hidrocarbonetos similares aos produzidos nas refinarias de petróleo, conforme nota do Centro.


Há dois meses, o CPQD e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) lançaram o projeto ECOS. O programa tem como foco a criação de soluções para data centers sustentáveis e inteligentes. A duração do projeto será de 24 meses. A parceria tem investimento de R$ 3 milhões - desse valor, R$ 1,5 milhão será aplicado para premiar produtos criados por startups. O objetivo é desenvolver tecnologias em eficiência energética, redução do consumo de água, fontes renováveis e diminuição da emissão de carbono.  



AÇÕES NO DIA A DIA


O professor FEEC/Unicamp afirma que todos nós no dia a dia podemos adotar posturas que impactem positivamente o meio ambiente e promovam transição energética. Ele aponta o uso de lâmpadas LED como uma forma de reduzir o consumo de energia e da conta de luz no fim do mês.


“Se o consumidor comprar uma geladeira nova e trocar a antiga, que está dando gasto de mais de R$ 200,00 por mês, em um ano ele paga o eletrodoméstico. Nós desenvolvemos a tecnologia do etanol nos carros flex. Optar pelo etanol, e não pela gasolina, reduz o consumo de combustível fóssil e eleva o uso de combustível mais limpo e renovável”, indica o especialista.

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